terça-feira, 24 de agosto de 2010

CARLOS LUNGARZO: "DEVEMOS REAGIR CONTRA A PUNIÇÃO DO PENSAMENTO!"

O fato que motiva a exacerbação da extrema direita contra o comunicador, escritor e blogueiro Celso Lungaretti, deflagrada pela tentativa de censura lançada por um representante da grande mídia e de seus aliados no meio jurídico, é de extrema gravidade.

Em muitos assuntos humanitários, às vezes as pessoas se furtam de agir, mesmo que possuam boa vontade, fazendo um balanço entre os danos e os benefícios. Todos conhecemos os versos do célebre poema de Brecht, mas neste caso ele são ainda mais aplicáveis que em outras situações.

Com efeito, talvez seja verdade que não seremos perseguidos por nossa raça, religião ou nacionalidade. Talvez possamos pensar que não estamos entre as que hoje são comunidades castigadas. Mas, todos nós opinamos, todos nós escrevemos. Se for castigada a opinião, sem dúvida estaremos entre as vítimas.

Na rede há dúzias de milhões de blogs, e talvez haja vários milhares de blogs brasileiros. Há blogs de todos os níveis e perfis, mas a maioria deles são blogs progressistas, que transmitem mensagens pela democracia, contra o autoritarismo, contra o fascismo. Isso se entende facilmente: como dizia o grande marxista Hilferding, “as elites podem comprar tudo, menos a inteligência e a sensibilidade; e raramente conseguem comprar os que as possuem, pois eles não se vendem”.

Então, todos nós somos alvos vulneráveis, todos nós somos Celsos Lungarettis, mesmo se divergirmos de sua ideologia, de seus procedimentos, de suas opções políticas específicas. Todos os que estamos contra a barbárie classista e racista, contra o genocídio social, contra a empáfia grosseira dos “coronéis” da mídia, contra a permanente faxina demográfica que se pratica no Brasil (seja com armas da polícia, com armas dos jagunços, com armas jurídicas, ou com armas verbais dos ideólogos), corremos perigo.

Está ainda sobre a mesa uma proposta de uma obscura figura do senado, que propõe uma censura na Internet tão completa que estimulará islâmicos e chineses a pedir bolsas brasileiras para se especializar em repressão (e talvez obter mestrado e doutorado). É o mesmo que foi indiciado, porém não julgado (e, sem dúvida, não punido) por corrupção, o mesmo que propôs a supressão do direito de asilo, o substituindo por uma proteção fajuta que seria decidida pelo senado (uma iniciativa tão descabida que nem os maiores capangas da oposição a levaram em conta).

Mas, já houve amostras mais concretas do perigo que corremos:
  1. Há alguns anos, um juiz decidiu punir ao prestigioso escritor Ricardo Morais, porque em seu livro A Toca dos Leões, denunciava um senhor feudal do Centro Oeste brasileiro que propunha a esterilização das mulheres nordestinas. Em vez de investigar a denuncia, a “justiça” puniu o denunciante.
  2. Em 2006, o professor Emir Sader denunciou como racista um senador que tinha manifestado sonoramente sua abominação “por aquela raça do PT”, sugerindo também que o país deveria “livrar-se dela”. Um juiz, que foi criticado até por outros magistrados, produziu uma sentença truculenta: um ano de prisão e demissão definitiva de seu posto de professor, porque “corrompia” a juventude.
Os que somos originários de culturas e países onde prima a barbárie, temos grave dificuldade para reconhecer a dor de sermos dominados por um sistema jurídico iníquo, venal, subserviente, e alheio a qualquer forma de racionalidade e humanidade.

Mas, temos de reconhecer que, se continuamos nos submetendo ao arbítrio dos que se atribuem o monopólio de justiça, da fé e das ideologias, seremos um povo perdido, e não poderemos ajudar aos que mais nos precisam.

Temos alguns motivos recentes para sentir alguma esperança. Embora continuem controlando a mídia, a economia, as armas e o dinheiro, os setores mais bárbaros do país estão sofrendo a crescente repulsa da expressão popular.

Propostas de ação

Proponho a defensores da imprensa e da internet livre, ativistas dos Direitos Humanos, membros de ONGs humanitárias internacionais, políticos e magistrados progressistas,DENUNCIAR aos organismos internacionais, e às numerosas organizações não governamentais que defendem o direito de opinião e pensamento, a seguinte situação:
  1. o contexto pormenorizado dos fatos.
  2. a existência de legislação brasileira e internacional contra o preconceito, e o desprezo pelas aplicações destas leis em nosso país.
  3. as medidas que uma grande parte do Judiciário está adotando para estrangular a liberdade de expressão no Brasil.
  4. pedir a organismos internacionais a aplicação de formas possíveis de boicote, contra magistrados que estão ao serviço da censura. [Por exemplo, excluí-los de organizações internacionais de magistrados, boicotar suas publicações, se as tiverem, separá-los de associações às que pertençam, denunciar a seus comunidades para eventuais boicotes no caso de visita, etc.]
Estas medidas têm sido aplicadas com relativo sucesso nos meios científicos e podem funcionar em muitos outros.

Por último, fazer conhecer este caso de retaliação judicial contra o direito de denúncia, junto com os outros que se conhecem, à COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS, e aos organismos das NAÇÕES UNIDAS EM DEFESA DE LIBERDADE DE EXPRESSÃO.

Deve-se lembrar que a Lei 7716 proíbe a discriminação por raça, cor, etnia, religião e nacionalidade. Além disso, o artigo 20, §2, aumenta a pena quando se trata de discriminação o preconceito difundido pela mídia, como foram, as manifestações do elemento em apreço contra os varredores municipais. Finalmente, é necessário ter em conta que a maior parte da legislação internacional considera discriminação ou preconceito por nível econômico, extração social e tipo de atividade como equivalente a racismo.

Tendo em conta que a legislação sobre Direitos Humanos do Direito Humanitário Internacional é equivalente a preceitos Constitucionais, o escárnio público de pessoas em função de ter um trabalho humilde ou não qualificado, equivale a preconceito racial, nacional, religioso, ou étnico.

Portanto, devemos exigir a imediata suspeição do juiz do caso Lungaretti, e a aplicação da Lei 7716 contra o apresentador.

Por sinal, isto nos faz refletir como somos totalmente inconscientes de nossos direitos. Aquele acúmulo de obscenidades contra os varredores municipais produziu uma enorme onda de indignação, mas nenhum de nós tomou uma medida concreta, como a de denunciar seu autor por discriminação e preconceito contra condição social.

Meu e-mail mais ativo é: carlos.lungarzo@gmail.com

Estou convocando aos amigos a unir forças e ofereço a ajuda de meus colegas de organização. Sugiro que esta manifestação (que pode ser livremente copiada, emelhorada pelos leitores), seja retransmitida dentro das redes sociais a todos os contatos. Por minha vez, me comprometo a enviar cópias da mesma em inglês e espanhol a organismos internacionais. Agradecerei a quem puder traduzir em outras línguas.

Carlos Lungarzo (Anistia Internacional)


Boris Casoy move ação criminal contra Celso Lungaretti


Caros amigos,

Escrevo este post a fim de colocá-los a par de uma situação, para dizer o mínimo, asquerosa.


O jornalista e escritor Celso Lungaretti, de quem tenho a honra de chamar por amigo, está sendo processado por Boris Casoy, desde o dia 17 de agosto, no Juizado Especial Criminal da Barra Funda (SP), por calúnia ou injúria, em razão de seu artigo em resposta às ofensas lançadas por Boris contra os garis que tiveram a audácia de, “do alto de suas vassouras”, desejar feliz Ano Novo ao povo brasileiro.

Trata-se de uma tentativa do Casoy de calar um articulista comprometido com a justiça. O texto de Lungaretti foi escrito com base em fatos, não há especulação. Celso Lungaretti é consciente de que as palavras são pistolas carregadas. Ao escrever, ele atira. E sempre atira como um homem.

Boris Casoy apoiou a ditadura em todos os termos. Foi editor chefe da Folha de São Paulo no período do regime militar, coibindo qualquer jornalista contrário à repressão. Inclusive, facilitou para que muitos companheiros de trabalho fossem presos dentro do prédio da Folha de São Paulo. Sem falar no caso da greve dos jornalistas de 1979, quando este senhor promoveu a demissão em massa de todos os profissionais envolvidos na greve.

Em suma, Casoy é um tradicional capacho da direita, consequentemente, um tradicional covarde.

Segue abaixo o link com o artigo:

http://naufrago-da-utopia.blogspot.com/2010/08/casoy-me-move-acao-criminal-por-artigo.html#comment-form

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Uma questão de fé


Pedofilia. Tortura. Cicatrizes nas almas de milhares de crianças cujas inocências foram usurpadas.

Para desviar o foco das atenções, a Igreja Católica Apostólica Romana tentar utilizar uma estratégia política ultrapassada: afastar os holofotes de uma polêmica gerando uma nova polêmica. Talvez ela acreditasse que continuar rezando pelo catecismo propagandístico de Hitler seria a melhor forma de sair da fossa na qual se meteu até o pescoço.

Hitler considerava que a propaganda devia ser popular, dirigida às massas, desenvolvida de modo a levar em conta o nível de compreensão dos mais baixos. "As grandes massas", dizia ele, "têm uma capacidade de recepção muito limitada, uma inteligência modesta, uma memória fraca".

Mas a Igreja Católica não aprendeu muito bem a lição. Pois Hitler, em conluio com Goebbels, também disse: “a propaganda jamais apela à razão, mas sempre à emoção e ao instinto”.

Para Justificar a enxurrada de acusações de pedofilia e tortura contra padres e bispos em todas as partes do mundo, baseada em pesquisas científicas desconhecidas pela própria comunidade científica, a Igreja tentou desviar o foco das atenções jogando nas costas largas dos homossexuais a culpa pelas monstruosidades cometidas por seus representantes, inclusive pelo Papa Bento XVI, o qual, mesmo não cometendo os crimes, acobertou. Para mim, dá mesma.

Fico pensando cá com meus botões: “De onde será que tiraram essa idéia de que os casos de pedofilia são culpa da homosexualidade? Coisa mais insana!”

Em disputa com os escândalos católicos estão os escândalos da Igreja Universal do Reino de Deus. Por meio de um vídeo entregue por um ex-voluntário da Igreja, ficamos sabendo como o staff de Edir Macedo se preparou para enfrentar a crise econômica de 2008.

Em sistema de vídeo conferência, aparece Romualdo Panceiro, propenso sucessor de Edir Macedo, ensinando outros pastores a arrancar grana dos fiéis usando trechos da bíblia. Além disso, Romualdo também diz que para diminuir a quantidade de assaltos aos carros forte, responsáveis pela logística dos dízimos, é preciso fazer acordo com os bandidos, como já fizeram em outros Estados brasileiros.

Diante da situação escandalosa das duas maiores potencias religiosas brasileiras, os velhos fantasmas relacionados à fé voltam a me atormentar.

Penso a fé sob em dois aspectos: na conduta humana e na religiosa. Dois elementos que, embora distintos, estão intimamente ligados, no meu entender. E, para entender essa questão, escrevi um romance amargo e dolorido: O Ventre de Oxum.

Foi preciso sangrar 256 páginas, distribuir cusparadas em Deus, nos Homens e nos Orixás para compreender: onde começa o pensamento racional termina a fé e onde começa a fé termina o pensamento racional. Além disso, também compreendi que todos precisam da fé, mesmo que ela tenha como objeto de adoração a sua própria conduta moral e ética, transformando a si próprio numa espécie de deus, como é o caso dos ateus.

Meu romance é um registro do estado emocional e da cosmovisão presente naquela fase da minha vida. De lá pra cá, algumas coisas se modificaram, outras estão na mesma. Hoje, acredito mais no ser humano e fiz verdadeiramente as pazes com a minha fé. No entanto, periodicamente, faço um balanço geral da relação que mantenho com o Sagrado. Preciso ter certeza de que a conduta dos lideres religiosos não contaminaram o intercambio puro entre mim e aquilo que creio.

Não cabe a ninguém meter a bedelho na escolha religiosa de qualquer pessoa. Mas, talvez, uma saída para os fiéis dessas religiões em crise seja exatamente fazer um balanço de suas relações diretas com Deus. Dessa forma, cada indivíduo manterá a pureza da fé e a consistência do mistério, além de conseguir analisar com clareza qual melhor rumo a se seguir dentro da instituição a qual pertence. Afinal, o que está em xeque não é Deus, mas sim as Igrejas.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

João Silvério Trevisan leva para casa o prêmio de melhor romance do ano


Escritor ficcional, ensaísta, roteirista, diretor de cinema, dramaturgo, coordenador de oficinas literárias, jornalista e tradutor. Essas são algumas das facetas de Trevisan

Por Wagner Ribeiro

Na noite da última terça-feira (06/04), O escritor João Silvério Trevisan recebeu no teatro SESC Pinheiros, em São Paulo, o prêmio de melhor romance do ano pela Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA), com seu novo livro Rei do Cheiro. A cerimônia de premiação ganhou um brilho especial com a divertida apresentação de Maria Fernanda Candido e Dan Stulbach.

Ao contrário do que uma parte imprensa preconceituosamente publicou, Rei do Cheiro não é um romance com temática homossexual. O livro aborda criticamente a formação e o crescimento da moderna elite brasileira, inchada com seus novos ricos. Trata-se de um panorama histórico do Brasil contemporâneo, construído ficcionalmente a partir de fragmentos sociais produzidos pela mídia no período de 1950 a 2006.

Uma leitura dos subterrâneos do Poder

O personagem Ruan Carlos Coronado é o passaporte de embarque para uma viagem vertiginosa, cuja atração principal é um enorme espelho onde se reflete o avesso do glamour e do poder.

A saga começa com a migração do jovem e ambicioso Ruan para o centro de São Paulo em busca do “sonho dourado”. Logo inicia fortuna fabricando produtos cosméticos no fundo de sua loja na rua 25 de Março. O sucesso comercial é atingido com o desodorante My fire, produzido com ylang-ylang, uma essência com efeitos afrodisíacos.

Mas o momento crucial do romance se passa em 2006, durante os ataques do PCC, rebatizado CROC (Comando Revolucionário Organizado do Crime). Neste momento, durante a inauguração de um teatro em São Paulo, onde está reunida a nata da elite brasileira, os bandidos do PCC articulam um explosivo sequestro.

Instala-se uma situação parecida com a que Luís Buñuel explorou no filme “O Discreto Charme da Burguesia”. É nesta situação limítrofe que a elite e o próprio Brasil se revelam em sua verdade.

O final de Rei do Cheiro aponta dois fatos. Primeiro, instalou-se o caos na realidade brasileira sem que ninguém se incomode em identificar quem são os verdadeiros bandidos. Segundo, a APCA premiou a obra de um intelectual maduro e multifacetado, conhecedor das fronteiras exatas de suas facetas, sendo que cada uma delas se dedica a batalhas distintas de uma guerra única: viver e compreender o mundo atual.

Acompanhe a entrevista que João Silvério Trevisan cedeu ao Mundo Mais!

Mundo Mais - Os extremos da vida do seu protagonista, Ruan Coronado, são de tal modo invadido pela presença midiática que acabam se transformando quase num reality show. Você acredita que a sociedade contemporânea se tornou um produto da indústria cultural?

JSTrevisan - Desde a invenção do rádio, a indústria cultural vem crescendo e se impondo. Na sociedade contemporânea, somos manipulados 24 horas por dia pela publicidade, pelas novelas, pela música comercial, pelos programas de entretenimento, através dos quais aprendemos a consumir tudo o que for mais óbvio. Estamos de tal modo expostos que nossas vidas se tornaram um grande reality show. O sucesso de programas como o BBB ou “A Fazenda” se explica por espelharem nossas necessidades exibicionistas, que por sua vez precisam do voyeurismo para se completar. Somos ao mesmo tempo exibicionistas e olheiros. O entorpecimento daí resultante é uma maneira de enfrentar nossa espantosa solidão.

Mundo Mais - Ismael, o líder do CROC, é um bandido politizado, bonitão e fã de filmes clássicos. A população das periferias de São Paulo envia mensagens de apoio a Ismael. Você acha que os moradores da periferia estão a favor dos bandidos?

JSTREVISAN – Se a impunidade grassa entre a elite no poder e aí um grupo vem se contrapor a essa elite, mesmo que fora dos padrões legais, é natural que os excluídos do grande poder tenderão a sentir simpatia com os rebelados, mesmo porque são muitas vezes eles próprios inimigos dessas leis. Os ataques do PCC em 2006 tiveram clara aprovação de certos setores da população menos favorecida das periferias, como era possível constatar nas ruas e nas reportagens dos jornais. Muitos jovens, sobretudo, saudaram a explosão tanática das chamas de maio de 2006 como uma possível saída para sua revolta. Nas minhas pesquisas, encontrei muitos grupos de rap afinados com as propostas destrutivas do PCC – e não só na internet. No próprio centro de São Paulo pude encontrar CDs que louvavam a valentia dos bandidos do PCC. Aproveitei sugestões dessas canções no meu romance e às vezes até usei pequenos trechos de letras, temperando os paradoxos. O leitor poderá ver como aquilo é de uma selvageria assustadora. E, com certeza, não saiu da minha cabeça de ficcionista.

Mundo Mais - Qual a importância de Rei do Cheiro para a sociedade brasileira hoje?

JSTREVISAN – Bom, eu não acredito em missão salvacionista da produção ficcional e das artes narrativas. Mesmo porque denúncia virou função da mídia. Mas sempre achei que escritores podem ser para-raios do seu tempo e, através da expressão ficcional, têm potencial para transformar a realidade em alguma coisa para além dela, algo que se poderia chamar de Poesia, se isso for entendido como a capacidade de escancarar a crise de modo visionário. Sempre acreditei que há um paralelismo entre o profeta e o poeta. Então, com REI DO CHEIRO, o que pretendi foi exatamente isso: marcar a lembrança com ferro em fogo. Se há alguma importância no que faço, e eu acho que há, então deve ser essa capacidade de insistir que o rei está nu e de inventar formas de sobreviver, com um fio tênue de esperança. Mas até quando?

sábado, 3 de abril de 2010

Fragmentos

1h da madrugada. Sairei às 4h para ir surfar. Os músculos das minhas costas estão em chamas, inflamação imbecil. Não me importo com a dor. A dor é como outros demônios. Crescem à medida que lhes dedique atenção. Tudo nesta vida tem um preço, basta saber o quanto está disposto a pagar para se atingir um objetivo.

Pensamentos inóspitos habitam minha mente.

Decido escrever um post rápido para este blog.

As pessoas “normais” dedicam suas vidas à construção de uma fortaleza sólida em torno si próprias: casas de concreto, com grades em todas as janelas, apartamentos em condomínios que mais parecem penitenciarias, carros, todo tipo de artefatos com tecnologia de ponta, contratam empresas de segurança eletrônicas para monitorar, 24h por dia, primeiro seus bens, depois suas vidas. Assim, criam um reality show da vida real, no qual são protagonistas e espectadores ao mesmo tempo. Tornar suas vidas uma prisão é a única forma possível de sentirem algo parecido com felicidade e segurança.

Deve haver algo de errado com essas pessoas. Sufoca-me viver cercado pelo sólido. A idéia de ter total controle sobre o que vai acontecer me parece pavorosa. A vida perde o sabor.

O meu desejo é sair pelo mundo, sem paradeiro certo, conhecendo pessoas e lugares diferentes todos os dias. Mas, para isso, preciso do maldito dinheiro. O mesmo dinheiro que é necessário para possuir casas, apartamentos, carros, famílias e outros objetos. Mas é lógico que me parece mais interessante trabalhar para viver do que viver para trabalhar.

Tenho planos de viajar pela América Latina no final do ano, depois que terminar minhas responsabilidades com o mundo acadêmico, obrigações de todo cidadão exemplar. Contei sobre esses planos a um amigo. Ele perguntou se eu não atrasaria demais os meus “projetos de vida”. Pensei comigo mesmo: “Jesus! Do que ele está falando?”

Fui ingênuo. Ele faz parte da massa homogênea cujo projeto de vida consiste em transformar a vida mesma numa prisão. Para os integrantes dessa massa, é inconcebível uma vida em liberdade.

Se eu disser a essas pessoas que A LIBERDADE É MINHA ÚNICA PRISÃO, será que eles entenderiam? Será que compreenderiam o que quero dizer com o termo liberdade? Será que seriam capazes de me encarar sem o olhar inquisidor que lhes é característico?

E você, seria capaz de conceber uma vida sem se preocupar em estar rodeado pelo sólido? Quando o mesmo sólido pode ser o motivo da discórdia entre os seus descendentes depois de sua morte, sem falar que serão eles a gozar do fruto da sua não-vida.

terça-feira, 30 de março de 2010

Sobre a mídia e o Santo Daime


Um livro que me fascinou quando adolescente foi o romance O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde. As histórias das peripécias do diabo era um tema que me atraia demasiadamente, porque, desde aquela época, a ganância ilimitada dos seres humanos, que trocam suas almas por coisas fúteis, já era incompreensível para mim. E continua sendo até hoje.

Para quem não conhece a história, Dorian Gray era um jovem lindíssimo da alta sociedade, que despertou o desejo do ilustre pintor Basil Hallwardem de imprimir fielmente o Belo sobre uma de suas telas. Dorian, envaidecido de si mesmo, exclama algo do tipo: “Ficarei velho e feio. Entretanto, o quadro permanecerá eternamente jovem e lindo. Eu daria a alma para que ocorresse o contrário”.

O diabo ouve suas preces. Os anos passam e Dorian conserva a beleza angelical, enquanto o quadro envelhece em seu lugar. Como se não bastasse à feiúra da velhice, o quadro passa a tomar feições demoníacas a cada ato maldoso de Dorian. Aterrorizado com as feições da tela, que representam sua verdadeira face, Dorian pratica atos bondosos para reverter à situação. Volta ao quadro para verificar os efeitos produzidos por sua bondade. Constata que a mudança foi para pior: a imagem passara a exibir um sorriso hipócrita.

Contemplar a própria face estava além do limite de dor que Dorian poderia suportar. Ensandecido, ele crava um punhal no coração de seu retrato e se auto-aniquila.

Parece-me que O Retrato de Dorian Gray é a melhor forma de pensar a mídia atual, principalmente as revistas semanais, que escondem a face demoníaca e hipócrita sob o papel de bondosa prestadora de serviços.

Na madrugada de sexta-feira (12/03), um amigo jornalista, que trabalha num dos grandes jornais de São Paulo, me ligou com a notícia: “O Glauco e o filho foram assassinados! Parece o assassino fazia parte do Daime. O advogado disse que o assassino tava doidão.”

Nunca fui amigo do Glauco - nem pretendia ser - apenas cruzei com ele durante uma palestra no Salão do jornalista escritor, realizado há alguns anos no Memorial da América Latina. Mesmo assim, agradeci a informação antes de desligar o telefone. No entanto, não consegui mais dormir. Eu sabia que o caso seria explorado à exaustão pela mídia. E, pior ainda, sabia que, se o assassino de fato fosse membro do Santo Daime, a busca por um fator que explicasse e desse base para os desdobramentos da notícia – as “suítes”, no jargão jornalístico – naturalmente, seria a ayahuasca.

Infelizmente, eu estava certo. Logo o Daime foi escolhido pela imprensa como responsável pelos assassinatos do cartunista Glauco Villas Boas e de seu filho, Raoni Villas Boas, por Carlos Eduardo Sundfeld Nunes.

Deu-se, então, o início de uma mesopotâmica campanha de demonização do uso da ayahuasca, em conseqüência, a criação de uma imagem distorcida e preconceituosa do Santo Daime, por meio de opiniões obscurantistas em proporções absurdas, exigindo restrições e até a proibição da bebida em rituais religiosos.

O rosto claramente psicótico de Eduardo Sundfeld Nunes foi estampado na capa de duas das revistas de maior circulação no Brasil: Época e Veja.

A revista Época, na edição do último fim de semana, cedeu dez páginas para erigir a condenação do Santo Daime, já que o verdadeiro criminoso fora parar detrás das grades sem maiores esforços, só um policial federal baleado no braço, o que não é nada se comparado a brutalidade das duas mortes anteriores. Contudo, a resolução de crime envolvendo uma pessoa pública, quase celebridade jornalística, não poderia ter um final assim... assim... tão sem graça, venderia poucos jornais e revistas.

A reportagem recebeu o sugestivo título: O DOIDO, O DAIME & O CRIME. Foram ouvidas as versões dos pais e de especialistas. Mas nenhum representante do Santo Daime, ou de qualquer uma de suas vertentes, teve a chance de defender o ritual ao qual pertence, ou, pelo menos, de explicar o contexto religioso no qual a ayahuasca é utilizada.

Para completar a lição de jornalismo, a revista Época publicou, no final da reportagem, um artigo pra lá de preconceituoso do jornalista Paulo Nogueira, que termina com o seguinte parágrafo:

“Com todo respeito, espero que a versão brasileira da crendice, acrescida de uma droga que pode levar você a se achar Jesus Cristo, encontre limites.”

Pois, de minha parte, com todo respeito, não respeito jornalistas que pregam a intolerância religiosa e o cerceamento da liberdade de culto, baseando-se num caso isolado e oportunamente generalizado, quando o papel de um jornalista equilibrado é justamente o contrário disso. Aliás, parece-me que tal conduta também está se tornando tradição da própria revista Época.

Quanto à revista Veja, é sabido que há muito tempo deixou de ser um veículo sério, como o foi durante certo período da truculenta ditadura militar brasileira. Portanto, limito-me a transcrever abaixo o título de capa, o subtítulo e o título da reportagem. Estes elementos bastam para que se tenha uma idéia clara do tipo de jornalismo praticado por este veículo.

Título de capa:

O PSICÓTICO E O DAIME

Até que ponto se justifica a tolerância com uma droga alucinógena usada em rituais de uma seita?

Título da reportagem:

ALUCINAÇÃO ASSASSINA

Sem mais comentários.

***

É lamentável que alguns jornalistas e alguns veículos comunicação, no lugar de estimular debates equilibrados, sigam mais uma vez pelo débil caminho do reforço do preconceito e da opressão simbólica, disseminando mensagens subliminares do tipo: "Todos que tomam ayahuasca e participam do Santo Daime são psicóticos, assassinos em potencial". É vergonhoso esse tipo de conduta; ainda mais se tratando de formadores de opinião duma sociedade democrática.

Os jornalistas e os veículos de comunicação brasileiros precisam tomar cuidado com o tipo de sociedade e de cidadãos que estão formando.

Imagine se sociedade inteira decide rezar pelo catecismo dos veículos e dos jornalistas que produziram essas reportagens.

É mais produtivo e honesto fomentar uma sociedade composta por pessoas providas do sentimento interior de liberdade e de respeito ao próximo. Casos isolados não podem ser generalizados para macular a imagem de milhares de pessoas que dedicam suas vidas em função de uma filosofia cujo objetivo maior é alcançar a paz, provinda da união do Homem com a natureza.

Desconfio que a mídia precisa se lembrar diariamente de Dorian Gray, antes que seja tarde demais.