domingo, 3 de outubro de 2010

O VOTO QUE EU NÃO DEI



Sai de casa às 4h da madrugada deste domingo (03/09) para ir surfar. Queria a alma limpa e leve no momento de oferecer minha contribuição para definir o futuro da pátria.

Na volta, encontrei a cidade mergulhada em insanidade geral. A sensação era de que, de repente, não mais que de repente, eu estava no centro de uma opereta histriônica com direito a chuva de santinhos do PT e tudo o mais. Juro. Santinhos do PT eram atirados aos montes pelas janelas dos carros em movimento e também de cima dos viadutos.

As ruas e calçadas estavam forradas de papéis estampados com a face de personagens grotescos, trazendo a estrela vermelha ao lado de seus rostos. Sim, a maior parte do lixo era petista. E toda essa imundice se misturava com a chuva, formando uma pasta viscosa que ia escorrendo lentamente para as bocas-de-lobo. Amanhã, os bueiros de São Paulo estarão entupidos, fartos da política brasileira.

Fiquei me perguntando quantas bocas famintas poderiam ser alimentadas com a grana gasta em publicidade? E o meio ambiente? Ah, foda-se o meio ambiente! Foda-se também o fato de que a fortuna gasta em campanhas eleitorais poderia salvar vidas em vez de destruí-las. O importante é que amanhã teremos políticos nos representando em Brasília.

Depois de um trânsito infernal para conseguir chegar em casa, deixei a prancha e a mochila na sala. Do fundo da gaveta onde guardo papéis velhos e inúteis, dos quais não consigo me livrar, peguei meu título de eleitor. Nome pomposo, não? TÍTULO DE ELEITOR!

Apertando meu TÍTULO na mão, caminhei em meio ao lixo, de cabeça baixa, bombardeado por todos os lados com as vozes que diziam repetidamente: “Vou votar no Tiririca, pior não fica mesmo”.

Meu coração ficou apertado a ponto de me faltar ar nos pulmões. Mas, debilmente, segui adiante. Na porta da escola em que voto, olhei ao redor e a maioria das pessoas apanhava no chão um papel qualquer para votar em qualquer imbecil. Ou, então, aceitavam algum santinho oferecido descaradamente por um brasileiro miserável que ganhou R$ 50,00 para fazer boca de urna ilegalmente.

Não me dei por vencido. Entrei na escola. Fui para a fila. Um homem, na casa dos 40 anos, chegou atrás de mim, arrastando pela mão o filho que calçava sandálias Havaianas surradas, bermudinha e camiseta de manga longa, na qual ele limpava insistentemente o nariz escorrendo ranho.

- Pai, você vai votar no Tiririca, né?

- Vô, moleque, vô.

Insisto em afirmar: tudo que escrevo aqui é verdade. Não é fruto da minha fértil imaginação de escritor, como diria meu amigo João Silvério Trevisan.

Olhei o TÍTULO de eleitor na palma da minha mão, úmido de suor. Meus olhos arderam. Contive minhas águas a tempo. Sai da fila convencido de que o Brasil se tornou uma republiqueta das bananas e naturalmente não vive uma democracia. Os espertos, e mais esclarecidos do que eu em assuntos políticos, piscariam o olho, sorririam de lado e diriam: “Mas isto é a democracia, sim!”

Pois eu lhes desejo de todo coração que o diabo os carregue e dou-lhes a informação: Isto é escravidão mental; não democracia.

Voltei para casa, um brasileiro de 27 anos, olhos pregados no chão, sentindo na boca o gosto amargo do desamparo. Mas com o espírito salvo pelo voto que eu não dei.

7 comentários:

  1. Oi,
    Concordo muito com vc, tbm sinto um desânimo profundo ao ver a nojeira que os candidatos fizeram em nossa cidade, mas essa atitude não se restringe ao PT, no colégio em que votei havia toneladas de papelzinhos espalhados pelo chão de todos os partidos, inclusive do PV (mas o deles era de papel reciclado, afinal eles são pró meio ambiente). Além disso, ao final das apurações ver nomes como Tiririca e Paulinho da Força sendo eleitos me faz acordar pra triste realidade em que vivemos. Muita cerveja mesmo pra aguentar tudo isso.

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  2. Escrevi errado, corrigindo...papeizinhos...

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  3. Pois é Wagner, como havia dito pelo msn, minha justificativa foi o melhor voto q não dei! E cara pelo visto estamos numa ditadura petista, será q ngm ver ou tão virando a cara mesmo?

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  4. Camila, sem dúvida não havia somente lixo petista. Mas enfatizei o PT porque eles sabem muito bem a quantidade de pessoas que votam a partir de santinhos que encontram no chão, na hora de votar. E, sem dúvida, era a maioria...

    Um abraço do Wagner e valeu pelo comentário!

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  5. LQF - Pois é meu caro. Meu dia de democracia durou pouco: foi das 9h às 9h30 (faço questão de terminar cedo as coisas desagradáveis). E, claro, voltei a me sentir impotente. Não consegui lembrar o número do meu candidato (ai de mim, essa propaganda não me surte efeito) e dediquei novamente meus votos ao diabo: apertei "6" até que todos os retângulos estivessem satisfeitos. Você falou sobre o Tiririca e o lixo petista. O Tiririca cumpriu seu papel com louvor, levou mais cinco pro poder e não será mais do que o palhaço. O lixo petistia se mostrou demasiado eficiente, tanto que vi o papel de cola, molhado no chão, ser apanhado e avaliado: sugestão aceita! Meu voto não dado, no entanto, não me trouxe qualquer alívio. A farsa da democracia permanece intacta.

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  6. Querido amigo, ontem foi mesmo um dia difícil... Me segurar para não sair aos berros na rua xingando cada imbecil que aparecia pela frente anunciando votos a tiriricas, netinhos e outros surtados foi mesmo um teste de paciência...
    Em pensar que o "dignissímo" presidente ainda tem coragem de abrir a boca para falar em democracia...
    Nosso país não tem sequer ideia do que esta palavra realmente significa...
    Nunca poderá, em parte alguma do mundo, haver democracia sem liberdade, opção e principalmente educação e consciência política... coisas que sabemos não fazer parte deste país.

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  7. Uma pena que a situção política do nosso país seja tão sucateada. mas, evidentemente, isso não é exclusividade de nosso terriório tupiniqum. Entre farsas eleitorais no sistema de apuração primitivo dos E.U.A, golpes políticos no equador, regimes ditatoriais disfarçados na Venezuela, candidatos xenófobos nos países escandinavos, a conclusão geral de que o ideal socrático de democracia é tão utópico quanto qualquer sonho anarquico. No fim das contas, nivelando por baixo, até que não vamos, brasileiros, tão mal assim.

    A propósito, é ótimo reencontrar seus textos. Saudades da desilusão ácida dos seus comentários.

    Abraços

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